
Bem...atendendo o pedido de minha grande amiga Sandra Leichtfeld...resolvi falar sobre Drogas; um tema que tem sido amplamente discutido na atualidade, não apenas por causa da onda de criminalidade promovida pelo tráfico em muitos lugares do mundo, mas pelo efeito mais devastador dela: a interferência na vida de famílias inteiras, que se vêem, de repente, envolvidas com a questão da dependência química. Qual é a melhor maneira de lidar com esse problema? Essa é uma pergunta ainda não respondida, apesar dos inúmeros tratamentos disponíveis e das tentativas de muitos estudiosos para descobrir remédios e técnicas capazes de ajudar as pessoas a se livrarem do vício.
O que eu gostaria de abordar nesse artigo, porém, é outra questão, que também é importante que seja levantada: o que leva uma criança ou um adolescente a experimentar drogas e, eventualmente, a se tornar um dependente químico? É claro que essa é uma pergunta tão difícil quanto saber qual é a melhor forma de lidar com esse problema, mas há alguns mitos sobre essa questão que podem ser discutidos.
O primeiro deles é o de que os jovens que usam drogas pertencem a famílias “desestruturadas”. Durante muito tempo, a maioria das pessoas achou (e muitas ainda acreditam) que o problema das drogas estava restrito a crianças e adolescentes filhos de pais separados. O que se dizia é que esses filhos, desestabilizados pela separação, recorriam às drogas para esquecer os problemas e fugir do desconforto causado pelo fim do casamento dos pais. Hoje, sabe-se que o uso de drogas (incluindo o cigarro e o álcool, que são as chamadas drogas legais) ocorre tanto em famílias em que os pais estão separados quanto naquelas em que eles estão juntos. Portanto, o divórcio não serve mais como vilão para explicar o uso de drogas entre adolescentes, e outras causas, mais próximas da realidade, devem ser pesquisadas. Inúmeras pesquisas têm mostrado, por exemplo, que um dos principais motivos que levam os adolescentes a experimentar as chamadas drogas ilícitas (como a maconha e a cocaína, por exemplo) é a curiosidade pelas sensações que os amigos relatam sentir ou porque querem saber a razão de a droga ser tão consumida, apesar de todo mundo dizer que ela é ruim. Uma segunda causa, muito citada pelos adolescentes usuários de drogas, é a necessidade de aceitação pelo grupo de amigos. Muitas vezes, o jovem está em uma festa com os amigos ou vai a algum lugar à noite onde todos estão consumindo alguma droga. Nesse momento, ele se sente constrangido em dizer que não quer provar ou tem medo de ser rejeitado pelo grupo se não aceitar. Esses dados nos dizem, em primeiro lugar, que um adolescente não sai pelas ruas disposto a experimentar drogas pela primeira vez porque brigou em casa e acha que essa é uma ótima maneira de fugir dos problemas. Ele não conhece os efeitos da droga e as conseqüências que o uso pode trazer e, por isso, ela ainda não é um veículo de fuga.
O primeiro contato do adolescente com as drogas costuma ser casual, motivado principalmente pela curiosidade, pelo desejo de experimentar novas sensações e pela pressão do grupo de amigos do qual faz parte. Já o contato com drogas como o cigarro e o álcool costuma ser mais precoce e ocorre, na maioria das vezes, em casa. O fato de os pais beberem ou fumarem torna esses produtos acessíveis à criança, que, também por curiosidade, acaba experimentando-os. No entanto, é preciso considerar que, ainda que o primeiro contato com as drogas seja casual, o que faz com que uma criança ou adolescente se torne ou não um dependente químico não é mero acaso. Outro mito da atualidade é o de que os adolescentes têm muitas informações sobre os efeitos das drogas, já que o acesso à TV e a outros meios de comunicação de massa é generalizado e, portanto, todos “sabem bem o que fazem” quando utilizam qualquer substância química. Concepções parecidas são encontradas entre consumidores de ecstasy, uma substância muito utilizada pelos jovens em festas. Para eles, essa droga não vicia e não traz dano algum à saúde, o que é um erro grave. Tudo isso mostra que as informações que os adolescentes têm sobre drogas restringem-se a “drogas fazem mal à saúde”, mas a maioria não sabe dimensionar com clareza que tipo de dano a droga causa ao organismo.
O grande desafio de pais, educadores e profissionais da área da saúde é desmistificar o usuário de drogas. Quando se passa a encarar o uso de drogas como algo que pode acontecer com qualquer um, a necessidade de investimento em prevenção se torna ainda mais importante e passa a ser vista como algo fundamental na família e na escola.